segunda-feira, 9 de julho de 2007

Realidade e a arte de Transformar.

Viver é sem dúvida nossa maior aventura. Cada manhã é uma conquista, é olhar para trás e nem se reconhecer nas lembranças. Desde as lembranças doces da infância, as "crises" da adolescência, as confusões e dúvidas do início da vida adulta, as inseguranças, os medos, as sensações "estranhas" que sempre fizeram parte de nossa jornada.
Mas amanhecer também é olhar pra frente, pensar no que virá, usar o que já sabemos para construir o amanhã. Muitas vezes dá medo, pensamos em não levantar e, como crianças de colégio, inventar uma doença para não sair da cama. Pior é quando surgem aquelas tentações de fazermos diferente apesar da certeza de termos um único caminho.
Eu já disse aqui antes, somos hábeis construtores de mentiras, se de fato existem obstáculos em nossas vidas, também existem os que criamos, inventamos, colocamos lá só para justificar nossas "decisões".
De vez em quando somos iguais aquele jogador de futebol que vive simulando falta, ao sentir a aproximação do zagueiro dá um salto espetacular pra induzir o juiz a marcar falta. Muitas vezes nem há zagueiro, muitas vezes nem estamos com a bola, mas precisamos justificar nossa inoperância.
Outra coisa que fazemos muito para desviar o foco do que realmente é necessário é criar grandes e ambiciosos objetivos, é usar algo maravilhoso com um único intuito, justificar decisões do presente. Quando alguém te pergunta por que disso você logo usa o tal objetivo ambicioso como justificativa.
É como querer um carro de cem mil, investimos tudo nele, mas para nossa real necessidade um de vinte e cinco mil cobriria bem e com sobras. Então porque um de cem mil? Vaidade? Necessidade de pensar grande? Talvez. Quem sabe realmente faça sentido ter um carro de cem mil, o que não se explica é porque não investir num de vinte e cinco mil até chegar o momento de possuir o de cem.
Cada momento de nossa vida exige realismo, precisamos ter os pés na realidade, pensar seriamente no que precisamos, mesmo que desagradáveis, certas coisas são necessárias.
Não devemos criar obstáculos artificiais para justificar desvios, não devemos criar objetivos ambiciosos para justificar escolhas.
A vida já é cheia de obstáculos para ficarmos criando novos, vamos encarar de frente nossos problemas, implodir o que se tem a frente, prosseguir em nossa jornada, ficar "inventando" obstáculos é de uma auto covardia sem tamanho, já não bastam os existentes ainda somos capazes de criar novos?
Também devemos ser ambiciosos, desde que éticos, mas pegar algo tão bonito e usar como desculpa é injusto, faz parecer que o certo é errado. Se a vida é a grande aventura, devemos sim fazer dela a melhor aventura, termos objetivos grandiosos, mas também não devemos resumir nossas vidas somente a uma busca.
Somos filhos, namorados, casais, torcedores, eleitores, amigos, amantes e tantos outros num só que resumir nossa existência a um único objetivo é anular todo o resto.
Uma coisa de cada vez, degrau por degrau, quantas vezes ouvimos isso? Devemos sim acordar a cada manhã sonhando com o carro de cem mil, mas devemos levantar da cama decidindo o presente, em fazer escolhas hoje que nos permitam no futuro ter o tão sonhado carro. Afinal, hoje, um carro de vinte e cinco te leva aos mesmos lugares que um de cem mil, mas sem dúvida te oferece bem mais do que andar a pé ou ônibus (alguns com mais sorte tem caronas).
Talvez falar em criar mentiras não seja tão preciso para explicar, talvez o correto seja falar na arte da transformação, quando transformamos algo dando um formato adequado para as decisões que desejamos tomar, fugindo das que devemos tomar.
O lixo vira luxo, o luxo vira lixo.
Não há nada melhor para a vida do que realidade, aceitar a vida como ela é, enfrenta-la sem artifícios, tomar as decisões certas, não se acomodar, não aceitar a imobilidade, acreditar que podemos sim mudar, que podemos vencer.
A cada manhã olhamos para trás e não nos reconhecemos justamente por durante toda nossa história tivemos vitórias, derrotas, erros, acertos, fizemos coisas que hoje nos parecem impossíveis quando olhamos para frente.
Tem horas que dá um cansaço, já fizemos tanto e tem tanto por fazer. Então é hora de descansar, sentar num lugar protegido, talvez deitar e apreciar a paisagem, sentir as forças voltando, mas jamais, em hipótese alguma, desistir do que precisa ser feito, jamais tentar transformar a realidade.
Sonhe, sonhe alto, mas seja paciente em sua busca, construa no dia a dia seu futuro, saiba o que deve sacrificar para não sacrificar o que é necessário, identifique cada obstáculo e se planeje para superá-lo, se inspire no passado para construir o futuro.
Parece simples, e é.
:)



3 comentários:

Psique disse...

Viver é se reinventar a cada dia... E como fazer isso sem criar alguns artifícios que transformem nossa triste rotina diária num novo "invento"? Mesmo que este artifício seja fazer uma mentira parecer verdade, ou quem sabe fazer da verdade uma grande mentira!
Ousar, seduzir, desafiar, recuar e avançar..Que jogue a primeira pedra quem nunca usou e abusou dessas "verdades" (ou seriam mentiras???) para se reinventar, renascer, crescer e conseguir driblar seus obstáculos mais altos e atingir seu grande objetivo: VIVER!
Gosto de jogos. Gosto de transfomar as mentiras em verdades e as verdades em mentiras, até que não se saiba mais o que é certo ou errado.Até porque não acredito em verades ou mentiras absolutas. Tudo é uma questão de ponto de vista, meu caro...

Papos e reflexões disse...

Psique,

Vc é das artistas da transformação mais hábeis que já conheci, faz isso com maestria e tem o poder de envolver até ao mais atento observador, admiro muito suas virtudes e vejo, encantado, como consegue tudo que deseja.
Também respeito muito seu ponto de vista, mas existem respostas que só o tempo trás.
Escolhas feitas hoje refletem o que o futuro nos proporciona, como eu já disse uma vez, a natureza sempre cobra sua conta, tudo que alteramos nela, um dia se volta contra nós.

;)

Papos e reflexões disse...

Psique,

Estava aqui pensando no que falou sobre triste rotina diária.
Talvez só existam tristes rotinas diárias quando usamos demais de ferramentas de transformação, quando adiamos ou evitamos buscar nossos objetivos, fazer o que deve ser feito.
Se tivessemos feito tudo que deveríamos ter feito, será que ainda estaríamos envolvidos em tristes rotinas diárias?